sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Resenha : Extraordinário (2017)

Pôster do filme - Extraordinário (2017)

O filme " Extraordinário ", dirigido por Stephen Chbosky, lançado em 2017, foi um sucesso de bilheteria no Brasil e no mundo, inspirado no livro que é best-seller, da autora R.J. Palacio (2012). O filme conta a história de um menino chamado Auggie Pullman, que nasceu com deformações faciais causadas por uma síndrome genética e passa por várias cirurgias desde o seu nascimento. Até seus 10 anos ele não ia para escola por preocupação de seus pais em como as pessoas reagiriam com sua aparência. Mas, depois de um tempo, mesmo com medo das mudanças, Auggie e seus pais, interpretados por Julia Roberts e Owen Wilson, decidem que já está na hora dele ir para escola. Além do Auggie narrar a sua história, o filme também conta com a narração de outras personagens, como sua irmã Olívia, que conta como se sente em relação aos problemas do irmão, e como sua família encara isso. 

O que era esperado acontece, Auggie sofre muito preconceito por parte de seus colegas e pensa em desistir diversas vezes, mas ao longo da história vemos que não é apenas mais um filme de drama que retrata o bullying sofrido na escola. Extraordinário também nos mostra de uma forma emocionante sobre as amizades que Auggie conquista, como ele amadurece durante essa mudança de vida e como seus familiares e amigos aprendem todos os dias com ele. O filme nos inspira a ter coragem e encarar nossas dificuldades com amor, gentileza e muita empatia pelo próximo.




Resenha: Titanic (1997)


                  Exatos 23 anos após seu lançamento, Titanic, o filme norte-americano sobre o famoso transatlântico britânico do início do século 20, continua extremamente popular. Lançado em 1997, a película foi vencedora de 11 Oscars, feito conquistado por apenas outros três títulos. Foi o filme mais caro a ser produzido até então e também se tornou a maior bilheteria da história do cinema, feito que se manteve por 12 anos. Lançou ao estrelato a carreira de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, e sua música tema, cantada pela cantora canadense Celine Dion, manteve-se em primeiro lugar nas paradas de mais de 20 países ao longo de 1998.

                  O diretor James Cameron, conhecido pelos bem sucedidos O Exterminador do Futuro (1984) e Aliens (1986), aventurou-se no fundo do mar para obter filmagens reais da embarcação. Foram gastos milhões de dólares em figurinos de época, em efeitos de computação, alguns deles pouco usados ou que tiveram de ser criados do zero; e na construção de sets de filmagem, fazendo uso das plantas originais do navio, fornecidas pelo estaleiro irlandês que o construiu. Tudo isso contribuiu para que o filme se tornasse um blockbuster de números impressionantes. Porém, por que a história da um desastre que vitimou 1500 pessoas há pouco mais de um século se mantém tão popular na memória coletiva?

                  Para se obter um resposta satisfatória, são necessárias algumas considerações. A primeira delas é o tema abordado na obra. Cameron(1997) não apenas dirigiu, mas também escreveu o roteiro e de acordo com suas palavras: "...é uma história que trata de dor, da perda e do sacrifício." Para que a tragédia real fosse sentida com mais força, era necessário que ela ficasse evidente na parte ficcional do filme. É possível afirmar que o diretor foi bem sucedido em sua narrativa. Titanic segue vivo no zeitgeist atual, sendo fonte de incontáveis memes na internet, e referência cinematográfica em questão de qualidade e pioneirismo.

                  Chamada de "inafundável", a maior embarcação de então, afundou em sua viagem inaugural. A tragédia real atravessou décadas de acontecimentos históricos, sem nunca ser esquecida, exatamente por suas características tão improváveis de acontecer. A genialidade humana foi mais uma vez destruída pelo acaso. Justamente por ser tão improvável, tão inesperado e tão impactante, tal evento solidificou-se no imaginário popular. O Titanic se tornou "inafundável" somente após ter afundado, e ironicamente, o filme que era considerado um possível fracasso antes do lançamento, se tornou o maior sucesso comercial de Hollywood.



Paulo Figueiredo Reges, graduando de Letras Inglês da Universidade Federal de Goiás

RESENHA CRÍTICA: A máscara da Morte Rubra

 Conto: A máscara da Morte Rubra, Edgar Allan Poe, 1842.

Edgar Allan Poe, o mestre do suspense, nasceu em 1809 e faleceu em 1849, mas, em seus poucos anos de existência, agraciou a humanidade com diversos contos assombrosos. Em 1842, foi publicado o conto A máscara da Morte Rubra, pertencente a uma coletânea de contos que compõe o livro Histórias Extraordinárias.

Nesse conto, determinado reino, não identificado pelo autor, foi acometido por uma peste terrível que fazia suas vítimas sangrarem até a morte, razão pela qual foi denominada Morte Rubra. Temendo a doença, o soberbo príncipe Próspero se isolou em sua abadia com uma centena de convivas.

Destarte, passados meses de isolamento, o príncipe Próspero resolve promover um baile, extravagante e luxuoso. A festa acontecia em um ambiente divido em sete salas, todas com cores diferentes, sendo que a última apresentava uma decoração completa em preto e seus vitrais eram de uma cor purpúrea, deixando a sala com um tom avermelhado sombrio.

Além disso, esse ambiente possuía um relógio de ébano que, quando o carrilhão tocava, emitia um som estridente que aterrorizava todos os convidados, parando o baile com seu tinido medonho. Dessa forma, ao badalar da meia-noite, o relógio novamente produziu seu som grotesco, ocasião em que um novo integrante foi percebido no ambiente.

Todavia, esse integrante vestia-se com uma mortalha negra, com respingos de sangue e usava uma máscara vermelha que remetia a Morte Rubra. Tal vestimenta, de imediato, insultou o príncipe Próspero que determinou que seus convivas agarrassem o desconhecido, mas aqueles sentiram profundo terror.

Em seguida, inconformado, o próprio príncipe atravessou as sete salas em direção à figura medonha que se dirigia ao aposento negro, quando a alcançou, bradou a espada e caiu no chão, desfalecendo em sangue até sua morte. Após, os convidados tentaram segurar a figura desconhecida, contudo, constataram que não havia um ser humano embaixo das roupas e, um por um, todos os presentes no local caíram mortos.

Desse modo, o conto de Poe (1842) surpreende e amedronta seus leitores, provocando sensações indizíveis no interlocutor. O ambiente sombrio criado pelo autor, com minucias admiráveis, característica marcante de sua escrita, rememora as construções góticas e é responsável pelo clima de suspense presente em todo o texto.

Ademais, Poe (1842) trabalha com o tema da morte de forma brilhante, assunto tão recorrente em suas obras, pois insinua que, embora se tente fugir, ela sempre chegará. Por conseguinte, a originalidade de sua escrita lhe concede o título merecido de mestre do suspense, uma vez que incute terror ao leitor, assegurado por ambientes sombrios e temas mórbidos.

Além de tudo, no conto em questão, a surpresa gerada pelo desconhecimento da figura invasora que, ao final, se revela como a própria Morte Rubra, não deixa a obra monótona, fazendo o leitor ansiar pelo desfecho. Portanto, a obra de Poe (1842) é assombrosa, inovadora e se perpetua no tempo.


RESENHA: Hamilton – An American Musical

 

Hamilton: An American Musical, inspirado pela biografia Alexander Hamilton, do historiador Ron Chernow, é o mais novo conteúdo da nova plataforma de stream Disney+. O musical, criado pelo ator, compositor, cantor e dramaturgo Lin-Manuel Miranda, apresenta a vida de um órfão caribenho que, aos dezenove anos, migra para a colônia britânica que mais tarde viria a se tornar os Estados Unidos da América, sendo ele um dos apoiadores da independência estadunidense e um dos fundadores da pátria.

Ao lado de personagens históricos como Rei George III (Jonathan Groff), Thomas Jefferson (Daveed Diggs), George Washington (Christopher Jackson), o musical de 2015, em menos de um ano de criação, transferiu-se para Broadway e tornou-se um dos espetáculos mais aclamados pela crítica. A obra teatral é totalmente cantada, com apenas 4 diálogos ao longo de suas duas horas de duração, mas nem por isso seu ritmo cansa. Com concepção, música e letra de Lin-Manuel Miranda, Hamilton mescla estilos de música para contar a história de uma forma bem precisa e até mesmo engraçada, visto que estilos como hip-hop, rap, R&B, jazz e ritmos caribenhos não são gêneros tão comuns na Broadway.

Outro fator que implica para tamanho sucesso do musical que, até 2020, estava restrito somente à Broadway, é seu elenco. A representatividade acompanha os gêneros musicais das músicas, com uma enorme diversidade. No elenco, temos atores negros, latinos e de descendência asiática nos papéis de figuras históricas predominantemente brancas, o que pode ser até irônico visto que estamos falando de uma nação que se construiu sobre a opressão de povos minoritários e que até hoje continua a negligenciar e maltratar pessoas não-brancas. Além disso, o espetáculo dá importância para personagens históricos comumente esquecidos, como Eliza e Angelica Schuyler, esposa e cunhada de Alexander, responsáveis por divulgar os diversos estudos de Hamilton.

O musical é uma obra divertida, cheia de reviravoltas e de aprendizagens para nós, brasileiros, que não conhecemos toda a história americana. Hamilton consegue agradar públicos de todas as idades, indo das piadas e ironias até o drama, tudo isso em forma de números musicais impecáveis, dignos de um musical da Broadway.

Resenha: O pior cego é aquele que não quer ver !


 Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (1995)

José Saramago é aquele tipo de autor que não se pode deixar de ler pelo menos uma vez na vida. Então, para quem ainda não teve uma experiência com esse escritor ou pretende aumentar o repertório com mais obras do mesmo, Ensaio sobre a cegueira (1995) é parada obrigatória. José Saramago é um escritor português que nasceu em 1922, publicou diversas obras durante sua vida, principalmente sobre temáticas sociais, utilizando de muita ironia para criticar questões políticas e religiosas. Não é possível sair de nenhuma obra de Saramago sem se sentir obrigado a refletir sobre as mais variadas questões humanas. Uma das principais marcas do escritor é a sua linguagem, ele domina de tal modo sua língua que a subverte, seus parágrafos apresentam tamanho de uma página inteira, com falas inseridas no meio deles sem a indicação usual do início do diálogo, causando um estranhamento em quem se aventura pela primeira vez nas obras do escritor.

 Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras de maior destaque do autor, e com a qual ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1998, além de uma adaptação para o cinema. Nesse romance, Saramago (1995) nos coloca no meio de uma epidemia desconhecida, em que diversas pessoas passam a ficar cegas sem nenhuma explicação, e não é uma cegueira comum, é uma espécie de cegueira branca. Como essa contaminação passa a se espalhar pela cidade incontrolavelmente, na medida em que as pessoas ficam cegas, vão sendo obrigadas a se isolarem em um prédio que o governo determina para uma espécie de quarentena. Os personagens de Saramago (1995) não possuem nomes próprios, são indicados por suas profissões ou características individuais, temos ‘o médico’, a ‘mulher do médico’, a ‘rapariga dos óculos escuros’ e assim por diante. As primeiras pessoas cegas que são colocadas em quarentena são as que, em um primeiro momento, se encontraram no consultório de um médico oftalmologista, onde tiveram contato direto ou indireto com o primeiro cego. A mulher do médico, mesmo tendo contato com ele, um dos primeiros infectados, não ficou cega, mas para poder acompanhar o marido no isolamento finge que foi infectada e é levada junto com ele, mantendo segredo sobre essa condição. Sendo a única a enxergar nesse ambiente, acompanhamos com essa personagem os prós e os contra dessa ‘vantagem’ que ela possui.

Como o medo de contaminação é muito grande, os cegos são isolados sem contar com nenhum suporte de pessoas que enxergam, precisando assim, reaprender a fazer todas as coisas e a se locomoverem, agora como cegos. Com suas cenas realistas, Saramago (1995) nos faz refletir sobre o comportamento do ser humano em situações extremas e nos perguntamos a todo o momento: ‘Eu faria diferente?’

O prédio em que se encontram os contaminados é vigiado por soldados armados e a entrega da comida é feita pela porta, onde os próprios cegos são encarregados de pegar, já que há um medo muito grande, dos próprios soldados, de se contaminarem. A princípio, os cegos em quarentena conseguem manter certa organização com a ajuda da mulher do médico que ainda enxerga (mesmo eles não sabendo de sua condição). Entretanto, um grupo de cegos de outra camarata passa a pegar toda a comida e só disponibilizá-la sob a condição de receber algo em troca. Primeiramente são os objetos de valor, que logo acabam, depois, o pagamento que eles exigem são as próprias mulheres dos homens das outras camaratas.  Muitos conflitos surgirão e decisões deverão ser tomadas, principalmente com a epidemia se espalhando até mesmo dentro do governo e no restante da cidade. O caos será instalado, tanto dentro do prédio em quarentena, quanto na cidade que se torna uma cidade de cegos. Nessa obra, Saramago consegue explorar a temática sobre o que as pessoas são capazes de fazer por sua própria sobrevivência.

Não pretendo iludir você leitor, de que é uma leitura leve, e não falo somente da adaptação inicial que é preciso para compreender a escrita revolucionária de Saramago, mas porque nessa obra, ele apresenta situações de maneira tão realista, que você vai precisar de algumas pausas para dar uma respirada. Garanto que não vai sair o mesmo desta leitura, e por mais que tenha odiado a obra, vai se pegar refletindo a todo o momento sobre as situações extremas que o autor propõe. Ensaio sobre a cegueira é uma alegoria sobre a nossa própria condição de cegueira: “O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.” (trecho de Ensaio sobre a cegueira).