domingo, 10 de janeiro de 2021

RESENHA:A DANÇA DA MORTE

 

Foto retirada da atual edição disponível no Brasil de A dança da morte.


Após um erro em uma base de teste biológico nos Estados Unidos, uma super gripe se espalha ao redor do mundo, matando mais de 99% da população mundial dentro de poucas semanas.Os que sobreviveram, por algum motivo desconhecido, são imunes ao vírus e tentam descobrir o que fazer nesse novo mundo.Dois líderes então se levantam e,por meio de aparição em sonhos,chamam os remanescentes para construir uma nova sociedade.A primeira sociedade é liderada pela benevolente mulher de 108 anos de idade,Mãe Abagail. A segunda sociedade é liderada pelo cruel Randall Flagg,o homem escuro.


Em A dança da morte,stephen King(1978)cria um épico pós-apocalíptico sobre a queda e a reconstrução da sociedade.Dividido em 3 partes, o livro começa na noite em que o paciente zero contrai o vírus e, sem saber que estava contaminado, da início a uma cadeia de acontecimentos mortais, espalhando o vírus pelos Estados Unidos e depois ao mundo.A partir desse cenário a história segue em um ritmo quase perfeito, apresentando os personagens principais da trama, seus dilemas e a personalidade de cada um, de modo que quando o vírus os atinja, o leitor já esteja familiarizado com eles e se compadeça com situação que está acontecendo.King (1978) traz uma gama de personagens riquíssimos e reais,que aparentemente podem ser vistos como simples pessoas vivendo suas vidas, mas conforme o enredo avança,vão mostrando o melhor e o pior de si.Alguns desses personagens são: Stuart Redman, um viúvo sem grandes pretensões que tem sua vida bagunçada após sua cidade se transformar no epicentro da doença.Frannie Goldsmith,uma universitária que descobre estar grávida e tem que lidar com a questão de não amar o pai do seu filho.Larry Underwood,um cantor que após estourar com seu hit, tem que voltar a viver com sua mãe sem nenhum dinheiro no bolso.Esses e outros personagens são apresentados na história de modo que não haja um único personagem principal,pois a situação e os acontecimentos ocorrem independente de qualquer ligação com os personagens da trama.


A fantasia também está presente em A dança da morte com a figura de Randall Flagg  representando toda mágica do livro.O principal antagonista da história tem a capacidade de mexer com o sobrenatural,e assim ele usa sua mágica para atrair e corromper alguns personagens,os influenciando a  cometer as piores atitudes nesse novo mundo sem lei.


Randal Flagg,Foto retirada da edição americana The stand.


Segundo o próprio autor, a ideia para esse enredo lhe ocorreu quando estava sentado na sala de espera do hospital, ele lia um jornal que falava sobre a poluição causada por alguns materiais químicos no ar, e pensou no perigo desses materiais.Em seguida, perguntou para o doutor o que havia de mais perigoso para a extinção da raça humana. O médico respondeu que o vírus é provavelmente a arma mais perigosa por conta da sua capacidade de modificação. Assim, em 1978 Stephen King escreveu a sua história e como uma homenagem que sempre quis fazer, busca criar o mesmo tom épico de O Senhor dos Anéis (um dos livros favoritos de king)em solo americano,sendo o Flagg uma espécie de novo Sauron.


O livro voltou a ganhar destaque durante essa pandemia (texto escrito durante a pandemia ,em 2020 ).O livro tem muitas coincidências com a situação atual,não somente por ser uma gripe, mas também por conta da maneira como algumas autoridades da obra se posicionam à respeito do vírus. Assim sendo, mesmo que o livro tenha sido escrito e publicado pela primeira vez em 1978,ler em 2020 enriqueceu muito a minha experiência como leitor.


Talvez para o leitor atual, que está em constante contato com outras obras de temática pós-apocalípticas,ler uma obra tão extensa como essa pode parecer um desafio, entretanto seria bom entrar em contato com o livro que influenciou tantas outras obras que vieram depois. Para um leitor de primeira viagem de King(1978), essa pode não ser a melhor leitura para começar com o autor, seu ritmo considerado por muitos como lento e o grande número de personagens podem ser um empecilho para aquele que não está acostumado com escrita a de King(1978).Apesar disso,com um pouco de paciência, é possível perceber logo na primeira parte do livro a habilidade do autor em envolver o leitor no meio de tanta confusão.


Dessa forma, caso você tenha se interessado, esse é um livro altamente recomendável.A dança da morte tem de tudo,aventura,romance, terror, suspense,drama,comédia,fantasia,épico. É um livro sobre travessias e transformações,sobre união para construir algo para o bem ou para o mal,e,principalmente,o livro é sobre a constante batalha entre o bem e o mal.Sua jornada será tão extensa quanto a dos personagens, mas no final,a história e os personagens permanecerão com você, mesmo após o fechar da última página.


Bônus: Recentemente "A dança da morte" foi adaptada para uma série de TV,disponível nos serviços de streams do Starzplay ou pelo serviços de canais presente no Amazon prime vídeo.



Link para o trailer: 

https://youtu.be/idHWCsTD3nU


Autor: Carlos Levy Limas de Sousa,em 10 de janeiro de 2021


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

RESENHA CRÍTICA: Incógnito, o livro que impulsiona a libertação do pássaro azul em nosso peito.

 

LAIR, Larissa; Incógnito; 1. ed. Rio de Janeiro: produção independente, 2020. P. 1-576.

         Os artigos indefinidos jamais serão vistos da mesma forma após a leitura do livro Incógnito, lançado em 2020 pela escritora e comunicóloga Larissa Lair (2020), que brinca com o tema da indefinição em toda sua obra e de diferentes maneiras, seja com os nomes dos capítulos, ou até mesmo com alguns acontecimentos presentes na história. No início da leitura, todos os leitores são incógnitos.

Larissa Lair (2020), formada em jornalismo, possui uma escrita leve e clara, com riqueza de detalhamento que atribui prazer ao leitor e o transporta com facilidade para o ambiente e para a ação narrada, proporcionando a sensação de estar no lugar da personagem. Incógnito é uma fanfic do grupo sul-coreano BTS e agora se tornou um livro, sendo o primeiro publicado da autora, feito de maneira independente. 

Essa primeira edição é focada, a princípio, no público que acompanhava Incógnito nas plataformas digitais de histórias e de fanfics, por esse motivo é considerada um fan made (feito por fã) e não foi necessário alterar os nomes das personagens. No entanto, a autora possui um grande interesse em adaptar a obra para o Brasil e publicá-la também. 

Incógnito é um livro LGBTQ+ colegial que aborda muitos impasses da juventude, sobretudo bullying, homofobia, busca de identidade, relação entre os pais e o adolescente, anorexia, entre outros. Mesmo não tratando de todos esses temas de maneira aprofundada, Incógnito ainda é um livro no qual muitos jovens identificam seus conflitos na adolescência e se sentem acolhidos por saberem que não são os únicos que possuem medos e dúvidas ou que sofrem de algum problema, seja ele externo ou interno. Saber que não se está sozinho em determinada situação é reconfortante, e Incógnito é um livro que, nesse quesito, te abraça.

O título da obra remete a uma das personagens principais: Kim Taehyung, um adolescente que perde seu diário, o qual usava a palavra ‘’incógnito’’ para se autodenominar, buscando manter sua identidade anônima. Mas Jeon Jeongguk, o garoto que encontrou este diário, investiga com minuciosidade todos os detalhes presentes nas anotações pessoais do Incógnito para descobrir quem é a pessoa por trás das narrações peculiares e fascinantes presentes no caderno. Jeongguk, sabendo de todos os problemas que o dono do diário enfrentava — como bullying e homofobia —, sentiu uma grande vontade de se tornar amigo dele.

Assim, há todo um planejamento vindo do garoto para arranjar uma maneira de se aproximar de Taehyung e enfim devolver o diário para ele. O adolescente tem êxito em se aproximar do Incógnito, mas não consegue entregar o caderno ao dono, então o mantém guardado. Cada vez mais próximos, sentimentos novos vão aflorando dentro de Jeongguk e ele se vê cercado de dúvidas, medos e espinhos, se perguntando a todo momento se estava mesmo sentindo atração por um garoto.

Lair (2020) trabalha em sua obra o poema O pássaro azul, de Charles Bukowski, que trata da censura de quem a pessoa realmente é. O eu-lírico do poema diz que há um pássaro azul dentro de si, mas é duro demais com ele e não o deixa sair, ou quando o deixa, é à noite, quando ninguém está vendo, e em seguida ele volta para seu devido lugar: em seu peito. Ambas as personagens principais possuem um pássaro azul guardado dentro de seu peito e os leitores, conforme a leitura, vão percebendo qual pássaro azul aprisionam também.

Da mesma forma como há a abordagem de indefinição em Incógnito, existem também muitas descobertas: sobre orientação sexual, sobre identidade e, claro, sobre com quem o diário estava. Apesar de toda reviravolta decorrente desses descobrimentos, eles apenas servem para definir e concretizar os sentimentos e as concepções das personagens.

Um capítulo muito marcante para a história inteira é o Um baile, pois Taehyung, depois de enfim conquistar sua voz e de ter construído uma confiança dentro de si, encara de frente o valentão que costumava praticar bullying consigo, enfrentando todos os seus medos com coragem, determinando, então, sua verdadeira personalidade. Além deste grande fator, no capítulo há a liberação do pássaro azul dos dois garotos quando, no meio de todos os alunos do baile de formatura, eles decidem se beijar, expondo para todo o colégio que estavam juntos.

Assim como as duas personagens principais, no final da leitura do livro os leitores já tiveram uma reflexão significativa sobre sua própria identidade e descobriram ou reafirmaram quem eles são de fato, enfim liberando o pássaro azul — que significa a própria aceitação individual — guardado dentro de cada um. Por fim, os leitores deixam de ser incógnitos.

           Como se trata de uma obra narrada através da perspectiva de um adolescente, Incógnito tem como público-alvo jovens entre 14 e 17 anos, mas considero um livro para todas as idades devido aos temas importantes abordados ao longo do romance e, claro, ao fato de que não tem idade para se ter um pássaro azul guardado em nosso peito. Portanto, afirmo ser um livro que trará muitos ensinamentos ao leitor e o fará descobrir muitas coisas sobre si mesmo, assim como Taehyung e Jeongguk descobriram, juntos.

 

Resenha por: Maria Clara de Paula Reis, graduanda em Letras: português pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Onde ler Incógnito:

https://www.spiritfanfiction.com/historia/incognito-vkook--taekook-7043132

https://my.w.tt/jHnIDuAGScb 

Resenha : Extraordinário (2017)

Pôster do filme - Extraordinário (2017)

O filme " Extraordinário ", dirigido por Stephen Chbosky, lançado em 2017, foi um sucesso de bilheteria no Brasil e no mundo, inspirado no livro que é best-seller, da autora R.J. Palacio (2012). O filme conta a história de um menino chamado Auggie Pullman, que nasceu com deformações faciais causadas por uma síndrome genética e passa por várias cirurgias desde o seu nascimento. Até seus 10 anos ele não ia para escola por preocupação de seus pais em como as pessoas reagiriam com sua aparência. Mas, depois de um tempo, mesmo com medo das mudanças, Auggie e seus pais, interpretados por Julia Roberts e Owen Wilson, decidem que já está na hora dele ir para escola. Além do Auggie narrar a sua história, o filme também conta com a narração de outras personagens, como sua irmã Olívia, que conta como se sente em relação aos problemas do irmão, e como sua família encara isso. 

O que era esperado acontece, Auggie sofre muito preconceito por parte de seus colegas e pensa em desistir diversas vezes, mas ao longo da história vemos que não é apenas mais um filme de drama que retrata o bullying sofrido na escola. Extraordinário também nos mostra de uma forma emocionante sobre as amizades que Auggie conquista, como ele amadurece durante essa mudança de vida e como seus familiares e amigos aprendem todos os dias com ele. O filme nos inspira a ter coragem e encarar nossas dificuldades com amor, gentileza e muita empatia pelo próximo.




Resenha: Titanic (1997)


                  Exatos 23 anos após seu lançamento, Titanic, o filme norte-americano sobre o famoso transatlântico britânico do início do século 20, continua extremamente popular. Lançado em 1997, a película foi vencedora de 11 Oscars, feito conquistado por apenas outros três títulos. Foi o filme mais caro a ser produzido até então e também se tornou a maior bilheteria da história do cinema, feito que se manteve por 12 anos. Lançou ao estrelato a carreira de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, e sua música tema, cantada pela cantora canadense Celine Dion, manteve-se em primeiro lugar nas paradas de mais de 20 países ao longo de 1998.

                  O diretor James Cameron, conhecido pelos bem sucedidos O Exterminador do Futuro (1984) e Aliens (1986), aventurou-se no fundo do mar para obter filmagens reais da embarcação. Foram gastos milhões de dólares em figurinos de época, em efeitos de computação, alguns deles pouco usados ou que tiveram de ser criados do zero; e na construção de sets de filmagem, fazendo uso das plantas originais do navio, fornecidas pelo estaleiro irlandês que o construiu. Tudo isso contribuiu para que o filme se tornasse um blockbuster de números impressionantes. Porém, por que a história da um desastre que vitimou 1500 pessoas há pouco mais de um século se mantém tão popular na memória coletiva?

                  Para se obter um resposta satisfatória, são necessárias algumas considerações. A primeira delas é o tema abordado na obra. Cameron(1997) não apenas dirigiu, mas também escreveu o roteiro e de acordo com suas palavras: "...é uma história que trata de dor, da perda e do sacrifício." Para que a tragédia real fosse sentida com mais força, era necessário que ela ficasse evidente na parte ficcional do filme. É possível afirmar que o diretor foi bem sucedido em sua narrativa. Titanic segue vivo no zeitgeist atual, sendo fonte de incontáveis memes na internet, e referência cinematográfica em questão de qualidade e pioneirismo.

                  Chamada de "inafundável", a maior embarcação de então, afundou em sua viagem inaugural. A tragédia real atravessou décadas de acontecimentos históricos, sem nunca ser esquecida, exatamente por suas características tão improváveis de acontecer. A genialidade humana foi mais uma vez destruída pelo acaso. Justamente por ser tão improvável, tão inesperado e tão impactante, tal evento solidificou-se no imaginário popular. O Titanic se tornou "inafundável" somente após ter afundado, e ironicamente, o filme que era considerado um possível fracasso antes do lançamento, se tornou o maior sucesso comercial de Hollywood.



Paulo Figueiredo Reges, graduando de Letras Inglês da Universidade Federal de Goiás

RESENHA CRÍTICA: A máscara da Morte Rubra

 Conto: A máscara da Morte Rubra, Edgar Allan Poe, 1842.

Edgar Allan Poe, o mestre do suspense, nasceu em 1809 e faleceu em 1849, mas, em seus poucos anos de existência, agraciou a humanidade com diversos contos assombrosos. Em 1842, foi publicado o conto A máscara da Morte Rubra, pertencente a uma coletânea de contos que compõe o livro Histórias Extraordinárias.

Nesse conto, determinado reino, não identificado pelo autor, foi acometido por uma peste terrível que fazia suas vítimas sangrarem até a morte, razão pela qual foi denominada Morte Rubra. Temendo a doença, o soberbo príncipe Próspero se isolou em sua abadia com uma centena de convivas.

Destarte, passados meses de isolamento, o príncipe Próspero resolve promover um baile, extravagante e luxuoso. A festa acontecia em um ambiente divido em sete salas, todas com cores diferentes, sendo que a última apresentava uma decoração completa em preto e seus vitrais eram de uma cor purpúrea, deixando a sala com um tom avermelhado sombrio.

Além disso, esse ambiente possuía um relógio de ébano que, quando o carrilhão tocava, emitia um som estridente que aterrorizava todos os convidados, parando o baile com seu tinido medonho. Dessa forma, ao badalar da meia-noite, o relógio novamente produziu seu som grotesco, ocasião em que um novo integrante foi percebido no ambiente.

Todavia, esse integrante vestia-se com uma mortalha negra, com respingos de sangue e usava uma máscara vermelha que remetia a Morte Rubra. Tal vestimenta, de imediato, insultou o príncipe Próspero que determinou que seus convivas agarrassem o desconhecido, mas aqueles sentiram profundo terror.

Em seguida, inconformado, o próprio príncipe atravessou as sete salas em direção à figura medonha que se dirigia ao aposento negro, quando a alcançou, bradou a espada e caiu no chão, desfalecendo em sangue até sua morte. Após, os convidados tentaram segurar a figura desconhecida, contudo, constataram que não havia um ser humano embaixo das roupas e, um por um, todos os presentes no local caíram mortos.

Desse modo, o conto de Poe (1842) surpreende e amedronta seus leitores, provocando sensações indizíveis no interlocutor. O ambiente sombrio criado pelo autor, com minucias admiráveis, característica marcante de sua escrita, rememora as construções góticas e é responsável pelo clima de suspense presente em todo o texto.

Ademais, Poe (1842) trabalha com o tema da morte de forma brilhante, assunto tão recorrente em suas obras, pois insinua que, embora se tente fugir, ela sempre chegará. Por conseguinte, a originalidade de sua escrita lhe concede o título merecido de mestre do suspense, uma vez que incute terror ao leitor, assegurado por ambientes sombrios e temas mórbidos.

Além de tudo, no conto em questão, a surpresa gerada pelo desconhecimento da figura invasora que, ao final, se revela como a própria Morte Rubra, não deixa a obra monótona, fazendo o leitor ansiar pelo desfecho. Portanto, a obra de Poe (1842) é assombrosa, inovadora e se perpetua no tempo.


RESENHA: Hamilton – An American Musical

 

Hamilton: An American Musical, inspirado pela biografia Alexander Hamilton, do historiador Ron Chernow, é o mais novo conteúdo da nova plataforma de stream Disney+. O musical, criado pelo ator, compositor, cantor e dramaturgo Lin-Manuel Miranda, apresenta a vida de um órfão caribenho que, aos dezenove anos, migra para a colônia britânica que mais tarde viria a se tornar os Estados Unidos da América, sendo ele um dos apoiadores da independência estadunidense e um dos fundadores da pátria.

Ao lado de personagens históricos como Rei George III (Jonathan Groff), Thomas Jefferson (Daveed Diggs), George Washington (Christopher Jackson), o musical de 2015, em menos de um ano de criação, transferiu-se para Broadway e tornou-se um dos espetáculos mais aclamados pela crítica. A obra teatral é totalmente cantada, com apenas 4 diálogos ao longo de suas duas horas de duração, mas nem por isso seu ritmo cansa. Com concepção, música e letra de Lin-Manuel Miranda, Hamilton mescla estilos de música para contar a história de uma forma bem precisa e até mesmo engraçada, visto que estilos como hip-hop, rap, R&B, jazz e ritmos caribenhos não são gêneros tão comuns na Broadway.

Outro fator que implica para tamanho sucesso do musical que, até 2020, estava restrito somente à Broadway, é seu elenco. A representatividade acompanha os gêneros musicais das músicas, com uma enorme diversidade. No elenco, temos atores negros, latinos e de descendência asiática nos papéis de figuras históricas predominantemente brancas, o que pode ser até irônico visto que estamos falando de uma nação que se construiu sobre a opressão de povos minoritários e que até hoje continua a negligenciar e maltratar pessoas não-brancas. Além disso, o espetáculo dá importância para personagens históricos comumente esquecidos, como Eliza e Angelica Schuyler, esposa e cunhada de Alexander, responsáveis por divulgar os diversos estudos de Hamilton.

O musical é uma obra divertida, cheia de reviravoltas e de aprendizagens para nós, brasileiros, que não conhecemos toda a história americana. Hamilton consegue agradar públicos de todas as idades, indo das piadas e ironias até o drama, tudo isso em forma de números musicais impecáveis, dignos de um musical da Broadway.

Resenha: O pior cego é aquele que não quer ver !


 Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (1995)

José Saramago é aquele tipo de autor que não se pode deixar de ler pelo menos uma vez na vida. Então, para quem ainda não teve uma experiência com esse escritor ou pretende aumentar o repertório com mais obras do mesmo, Ensaio sobre a cegueira (1995) é parada obrigatória. José Saramago é um escritor português que nasceu em 1922, publicou diversas obras durante sua vida, principalmente sobre temáticas sociais, utilizando de muita ironia para criticar questões políticas e religiosas. Não é possível sair de nenhuma obra de Saramago sem se sentir obrigado a refletir sobre as mais variadas questões humanas. Uma das principais marcas do escritor é a sua linguagem, ele domina de tal modo sua língua que a subverte, seus parágrafos apresentam tamanho de uma página inteira, com falas inseridas no meio deles sem a indicação usual do início do diálogo, causando um estranhamento em quem se aventura pela primeira vez nas obras do escritor.

 Ensaio sobre a Cegueira é uma das obras de maior destaque do autor, e com a qual ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1998, além de uma adaptação para o cinema. Nesse romance, Saramago (1995) nos coloca no meio de uma epidemia desconhecida, em que diversas pessoas passam a ficar cegas sem nenhuma explicação, e não é uma cegueira comum, é uma espécie de cegueira branca. Como essa contaminação passa a se espalhar pela cidade incontrolavelmente, na medida em que as pessoas ficam cegas, vão sendo obrigadas a se isolarem em um prédio que o governo determina para uma espécie de quarentena. Os personagens de Saramago (1995) não possuem nomes próprios, são indicados por suas profissões ou características individuais, temos ‘o médico’, a ‘mulher do médico’, a ‘rapariga dos óculos escuros’ e assim por diante. As primeiras pessoas cegas que são colocadas em quarentena são as que, em um primeiro momento, se encontraram no consultório de um médico oftalmologista, onde tiveram contato direto ou indireto com o primeiro cego. A mulher do médico, mesmo tendo contato com ele, um dos primeiros infectados, não ficou cega, mas para poder acompanhar o marido no isolamento finge que foi infectada e é levada junto com ele, mantendo segredo sobre essa condição. Sendo a única a enxergar nesse ambiente, acompanhamos com essa personagem os prós e os contra dessa ‘vantagem’ que ela possui.

Como o medo de contaminação é muito grande, os cegos são isolados sem contar com nenhum suporte de pessoas que enxergam, precisando assim, reaprender a fazer todas as coisas e a se locomoverem, agora como cegos. Com suas cenas realistas, Saramago (1995) nos faz refletir sobre o comportamento do ser humano em situações extremas e nos perguntamos a todo o momento: ‘Eu faria diferente?’

O prédio em que se encontram os contaminados é vigiado por soldados armados e a entrega da comida é feita pela porta, onde os próprios cegos são encarregados de pegar, já que há um medo muito grande, dos próprios soldados, de se contaminarem. A princípio, os cegos em quarentena conseguem manter certa organização com a ajuda da mulher do médico que ainda enxerga (mesmo eles não sabendo de sua condição). Entretanto, um grupo de cegos de outra camarata passa a pegar toda a comida e só disponibilizá-la sob a condição de receber algo em troca. Primeiramente são os objetos de valor, que logo acabam, depois, o pagamento que eles exigem são as próprias mulheres dos homens das outras camaratas.  Muitos conflitos surgirão e decisões deverão ser tomadas, principalmente com a epidemia se espalhando até mesmo dentro do governo e no restante da cidade. O caos será instalado, tanto dentro do prédio em quarentena, quanto na cidade que se torna uma cidade de cegos. Nessa obra, Saramago consegue explorar a temática sobre o que as pessoas são capazes de fazer por sua própria sobrevivência.

Não pretendo iludir você leitor, de que é uma leitura leve, e não falo somente da adaptação inicial que é preciso para compreender a escrita revolucionária de Saramago, mas porque nessa obra, ele apresenta situações de maneira tão realista, que você vai precisar de algumas pausas para dar uma respirada. Garanto que não vai sair o mesmo desta leitura, e por mais que tenha odiado a obra, vai se pegar refletindo a todo o momento sobre as situações extremas que o autor propõe. Ensaio sobre a cegueira é uma alegoria sobre a nossa própria condição de cegueira: “O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.” (trecho de Ensaio sobre a cegueira).