segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

 

O conto " o gato preto", de Edgar Allan Poe, foi escrito em 1842 e faz parte do romantismo sombrio que tem por característica o grotesco, o sobrenatural e o demoníaco. Esse conto inspira o horror e o mistério a cada página e compõe a saga de contos extraordinários do autor, isto é, uma coletânea com os contos mais expressivos de Edgar Allan Poe.

Nada menos esperado do que uma história macabra e instigante nos é apresentada na narrativa da personagem que de um temperamento dócil e humano, principalmente, com os animais, vai com o passar das páginas se tornado cada vez mais próximo de um demônio sem sentimentos.

Inicialmente em "o gato preto", a personagem em sua infância tinha um caráter de uma bondade sem defeitos ao ficar adulto esse traço se mantém e se casa com uma mulher com as mesmas ações e amor para com os animais.  Eles tinham vários animais, mas entre eles o preferido da personagem principal era um gato enorme e inteiramente preto chamado Plutão. Ele e o gato tiveram um bom relacionamento por vários anos, entretanto com a sucessão desses anos seu caráter é modificado drasticamente por conta do álcool e acaba por negligenciar e maltratar seus animais e sua esposa. Apenas sua afeição maior, o gato, não sentia seus mais tratos, até uma noite que voltara bêbado acaba por ferir e retirar um olho de Plutão.

Com o passar dos dias um sentimento de ódio o persegue e o espírito da perversidade o domina e acaba por matar seu gato enforcado. Na noite em que cometera esse ato cruel sua casa pega fogo e dificilmente os habitantes de lá conseguem escapar, e no lugar dos escombros apenas uma parede se manteve de pé com a marca em fuligem de um gato com uma corda em seu pescoço.

Um sentimento de remorso o toma e o faz procurar um semelhante para ocupar o lugar do falecido animal.

Encontra um gato parecido em uma taverna e o adota. Mas em vez de um sentimento de carinho e afeição sente antipatia pelo animal que assim como o primeiro era caolho, entretanto acima disso sentia medo do gato por em seu peito possuir a marca de uma forca em seus pelos brancos.

Em um dia que acompanha sua esposa ao porão o animal quase o derruba e ele acaba por tentar matá-lo, todavia sua esposa se põe entre eles e acaba morta. O assassinato não pesa muito nos ombros do narrador que a empareda tranquilamente e procura após concluir o sepultamento o gato para enfim matá-lo, mas não o encontra. Com isso, dormiu tranquilamente pela primeira vez desde a chegada do animal na casa.

No quarto dia após o crime ter sido cometido os policias fizeram uma visita e encontram por culpa do narrador o corpo com o gato emparedado junto ao cadáver.

 

Essa narrativa é muito bem estruturada, seguindo uma linha do supersticioso com o psicológico, em que o próprio nome do gato: Plutão remete ao Deus dos mortos na mitologia romana. Além disso, há alusão a superstição de que todo gato preto é uma bruxa disfarçada. Os atos cometidos pelo narrador levam-no a ver coisas como se ele fosse assombrado por elas, isso fica claro quando aparece nos escombros da casa a imagem de um enorme gato com uma corda no pescoço e quando a mancha branca nos pelos do segundo gato toma a forma de uma forca.

 O sentimento do narrador para com o gato remete ao mito do duplo em que ele não consegue aceitar suas próprias mudanças espelhando no gato sua aversão. Dessa forma, a maneira que o conto é contado em uma gradação de fatos que levam o personagem a se transformar na personificação do mal nos mostra que as ações por mais que elas pareçam estar impunes o que é plantado em algum momento é colhido.

FOLKLORE: O Escapismo de Lagos, Isolamento e Narrativas


(Photoshoot do Álbum por Beth Garrabrant)

            Folklore é o oitavo álbum de estúdio lançado por Taylor Swift, cantora americana que já ganhou anteriormente dois Album Of The Year no Grammy 's (em 2010 por “Fearless” e 2015 por “1989”). O trabalho fez muito sucesso mundialmente este ano, sendo a maior estreia de um álbum feminino de todos os tempos no Spotify, maior plataforma musical do mundo, e levando a cantora a concorrer ao seu terceiro álbum do ano. Juntamente com ela, houve produção de dois de seus amigos, Jack Antonoff e Aaron Dessner. Diferente de seus trabalhos anteriores que focavam em sua vida pessoal e experiências amorosas, Swift decidiu criar narrativas sobre o que ouvia de pessoas da sua família, de casas onde já morou ou criar personagens para contar suas histórias e criar seu próprio folclore. Segundo ela, as músicas nasceram de uma tentativa escapista durante a quarentena causada pelo Covid-19, deixando sua criatividade solta e se amalgamar com fantasias, histórias e memórias.

            Para um trabalho que foi lançado em um dos 24 de julho mais conturbados de todos os tempos, em pleno isolamento social e pessoas se encontrando apenas virtualmente, começar com a frase “Eu estou bem, estou tentando coisas novas / Estive dizendo sim em vez de não” nos deixa mais próximos da história ali contada. A narrativa mais interessante fica por conta de uma trilogia das músicas Cardigan, August e Betty. A história se inicia quando, em Cardigan, conhecemos Betty, uma mulher que devaneia sobre um acontecimento da adolescência, quando seu namorado da época acaba trocando-a por outra garota chamada Augustine nas férias de verão. A partir da melancolia do sentimento de lembrança, Betty diz “Eu sabia que você / Tentou mudar o final / Peter perdendo Wendy, eu / Eu te conhecia / Indo embora como um pai / Correndo como água, eu / E quando você é jovem, eles deduzem que você não sabe nada”. A história continua e volta ao tempo para que conheçamos a perspectiva de Augustine na faixa “August”. Ali descobrimos que, depois das férias de verão, James volta para Betty e deixa Augustine. O intrigante aqui se torna o eu lírico da personagem nos ganhar por sentirmos que ela estava apaixonada pelo rapaz e acreditava que ele deixaria a namorada para ficar com ela. Trechos como “Mas eu consigo nos ver perdidos nas memórias / Agosto foi embora em um instante de tempo / Porque isso nunca foi meu / E eu consigo nos ver enrolados em lençóis / Agosto foi embora como um gole de uma garrafa de vinho / Porque você nunca foi meu” demonstram isso. Para finalizar o ciclo, temos a perspectiva de James, na qual conseguimos perceber uma crítica da cantora. Enquanto as duas faixas anteriores são escritas e compostas por melodias bem trabalhadas e letras elaboradas e com referências, Betty é simplista e repetitiva, fazendo pensar no rapaz como um homem qualquer que tenhamos visto tentando se desculpar por ter traído. A ligação final do triângulo amoroso fica pelo refrão “Mas se eu aparecesse na sua festa / Você me receberia? / Você iria me querer? /Você me diria para ir para o inferno? / Ou me levaria ao jardim? / No jardim você confiaria em mim / Se eu te dissesse que foi apenas uma coisa de verão? / Tenho apenas dezessete anos, não sei de nada / Mas eu sei que sinto sua falta.”.



            Todas as dezesseis músicas que foram escolhidas para o trabalho possuem narrativas mirabolantes e que deixam o ouvinte atento até o último segundo. Epiphany, uma das minhas favoritas, faz um paralelo entre os médicos nos hospitais durante a pandemia e os soldados da Segunda Guerra Mundial. The Last Great American Dynasty tenta relatar o machismo contra uma cantora dos anos 50 chamada Rebekah Harkness, conhecida por sua vida de luxo e festas extravagantes. Seven tem uma bela história de amizade onde uma criança descobre que seu vizinho sofre homofobia de seu pai e chama-o para fugir para Indiana e viver como piratas. O conjunto torna-se coeso e leve, mesmo tratando de histórias cheias de emoção, ao explorar o gênero Folk deixando tudo mais leve e calmo.

            O álbum me remeteu aos “Lake Poets”. Era, basicamente, poetas do romantismo, como William Wordsworth e Beatrix Potter, que viviam em um “Distrito dos lagos”, na Inglaterra da metade do século XIX. Esses escritores escolheram morar à margem desses lagos, em uma espécie de vila, para que sua criatividade aflorasse e conseguissem escapar da sociedade para seguir a “Escola” que Wordsworth estava criando. Sendo suas principais características a linguagem e o eu lírico simples, escrita com exaltação da natureza e, a mais importante, voltar-se para dentro de sua mente, produzindo uma visão semi autobiográfica da natureza e da imaginação. O álbum faz diversas referências a esse modo de escrita, principalmente em “The Lakes”, que possui todos esses adereços, além de citar diretamente o movimento e a beleza dos picos de Windermere.

(Taylor Swift durante gravação de seu álbum - 2020)

            Por fim, Taylor Swift cria um trabalho que possui semelhanças com narrativas literárias, trazendo até referências de histórias clássicas e autores. Durante o isolamento social, todos nós buscamos alguma forma de fugir da realidade pelo menos uma vez ao dia, seja uma série, livro ou filme. Dentro de cada uma dessas músicas encontramos pequenos contos em forma de músicas, mundos e perspectivas que, muitas vezes, não tínhamos parado para observar. Essa obra pode ser indicada para qualquer um que queira encontrar, como a Taylor ou os poetas que escreviam à beira dos lagos, um refúgio inspirador esperando que tenhamos verões melhores novamente.





Álbum 25 da cantora Adele.

   

(capa do álbum)

    Em seu terceiro álbum, titulado como 25, a cantora Adele apresenta um trabalho distinto de seus antecessores, 19 e 21, apesar de manter a tradição de nomeá-los fazendo referência à idade da compositora. Sem abrir mão da ótima qualidade já conhecida por seus fãs, dessa vez a artista abre mão da temática desilusões amorosas, para mostrar uma análise da passagem do tempo, uma reflexão do passado, futuro, de quem ela se tornou a partir de vivências particulares, dentre elas, a maternidade.




(carta publicada pela artista explicando parte do processo criativo do CD).

    Trata-se de um disco composto por 11 faixas, com forte influência dos gêneros Jazz, Blues e predominância do Pop. A canção escolhida para divulgação inicial da obra foi ‘Hello’ (Olá). Adele define essa como um acerto de contas com pessoas que, de alguma forma, já a machucaram, inclusive ela mesma. Já a segunda música escolhida foi ‘When we were young’ (Quando éramos jovens), essa, por sua vez, trabalha bem a reflexão temporal, uma vez que é cantada a partir da perspectiva da cantora já com 50 anos de idade, relembrando todas as pessoas que passaram pela vida dela e seguiram caminhos diferentes, ou ainda são próximas, mas como todos mudam ao longo do tempo.

Clipe da música 'Hello'.
Clipe da música 'When we were young'.

    A batizada por ‘Sweetest devotion’ (A mais doce das devoções) não possui grande papel na divulgação comercial, mas retrata com esplendor a experiência maternal que a autora vivenciou durante a produção de seu trabalho. Escolhida para encerrar o CD de forma grandiosa, essa melodia traz na letra o sentimento que a maternidade é algo muito maior, que ela encontrou um propósito, uma razão para a jornada de vida dela com o nascimento do filho.

Canção 'Sweetest devotion'.

    Por isso, o 25 foi aclamado pela inovação das letras e apresentação de novos aspectos não explorados, anteriormente, por Adele. Tornando, assim, um dos álbuns mais bem sucedidos do milênio, tanto em impacto midiático, quanto em vendas. Portanto, vale a pena tirar uma hora do dia e se emocionar com essas composições.

Elsa Y Fred (2005)

 



Poster do filme Elsa&Fred (2005)

      Uma história bem simples sobre duas pessoas que se apaixonam, poderia ser classificado como uma comédia romântica, mas bem mais próximo da realidade, e protagonizado por pessoas na terceira idade: a bem humorada Elsa, que procura aproveitar ao máximo a vida, mesmo que para isso, às vezes, ela não seja politicamente correta. E Fred, um recente viúvo, pacato, triste e sistematicamente adequado a regras. Um dia, eles se conhecem, devido a um acidente causado por Elsa no carro da filha de Fred, a estressada Cuca. A partir daí, nasce uma amizade que se transforma em paixão. E é esta a essência do filme, um amor maduro, mas sem pressas e carregado de sonhos.

      Este filme expande os horizontes do amor, revelando que este sentimento não é exclusividade da juventude. Ele dá verdadeiro sentindo ao termo "melhor idade", já não é necessário provar mais nada um ao outro, apenas viver e ser feliz. Fred aos poucos se embriagando da vivacidade que exala de Elsa e ela revelando aos poucos suas máscaras e compartilhando seus sonhos. Com sequências divertidas e momentos ternos, os protagonistas tem como inspiração o filme A Doce Vida, de Federico Fellini (1960), por ser o grande sonho de Elsa: conhecer a Fontana di Trevi na Itália. E Fred faz de tudo para realizar o sonho de Elsa. Um filme que traz uma discussão relevante na sociedade atual, sobre o amor e liberdade na velhice.

            Elsa y Fred é um filme argentino de 2005, direção de Marcos Carnevale, um diretor e roteirista argentino, que ganhou vários prêmios por seus trabalhos na produção de séries da TV argentina. Embora não seja um filme muito conhecido no Brasil, tem boa avaliação nos sites especializados. Existe uma versão norte americana para este filme, com o mesmo nome, protagonizado pelos veteranos Shirley Maclaine e Christopher Plummer, de 2014, Mas, Elsa e Fred vivido pela argentina China Zorrilla e o espanhol Manuel Alexandre são de um carisma muito mais envolvente. Além de sair da rotina estadunidense de filmes, Elsa y Fred (2005) quando termina nos traz o desejo de ir em busca de novos sonhos.

  


domingo, 10 de janeiro de 2021

RESENHA:A DANÇA DA MORTE

 

Foto retirada da atual edição disponível no Brasil de A dança da morte.


Após um erro em uma base de teste biológico nos Estados Unidos, uma super gripe se espalha ao redor do mundo, matando mais de 99% da população mundial dentro de poucas semanas.Os que sobreviveram, por algum motivo desconhecido, são imunes ao vírus e tentam descobrir o que fazer nesse novo mundo.Dois líderes então se levantam e,por meio de aparição em sonhos,chamam os remanescentes para construir uma nova sociedade.A primeira sociedade é liderada pela benevolente mulher de 108 anos de idade,Mãe Abagail. A segunda sociedade é liderada pelo cruel Randall Flagg,o homem escuro.


Em A dança da morte,stephen King(1978)cria um épico pós-apocalíptico sobre a queda e a reconstrução da sociedade.Dividido em 3 partes, o livro começa na noite em que o paciente zero contrai o vírus e, sem saber que estava contaminado, da início a uma cadeia de acontecimentos mortais, espalhando o vírus pelos Estados Unidos e depois ao mundo.A partir desse cenário a história segue em um ritmo quase perfeito, apresentando os personagens principais da trama, seus dilemas e a personalidade de cada um, de modo que quando o vírus os atinja, o leitor já esteja familiarizado com eles e se compadeça com situação que está acontecendo.King (1978) traz uma gama de personagens riquíssimos e reais,que aparentemente podem ser vistos como simples pessoas vivendo suas vidas, mas conforme o enredo avança,vão mostrando o melhor e o pior de si.Alguns desses personagens são: Stuart Redman, um viúvo sem grandes pretensões que tem sua vida bagunçada após sua cidade se transformar no epicentro da doença.Frannie Goldsmith,uma universitária que descobre estar grávida e tem que lidar com a questão de não amar o pai do seu filho.Larry Underwood,um cantor que após estourar com seu hit, tem que voltar a viver com sua mãe sem nenhum dinheiro no bolso.Esses e outros personagens são apresentados na história de modo que não haja um único personagem principal,pois a situação e os acontecimentos ocorrem independente de qualquer ligação com os personagens da trama.


A fantasia também está presente em A dança da morte com a figura de Randall Flagg  representando toda mágica do livro.O principal antagonista da história tem a capacidade de mexer com o sobrenatural,e assim ele usa sua mágica para atrair e corromper alguns personagens,os influenciando a  cometer as piores atitudes nesse novo mundo sem lei.


Randal Flagg,Foto retirada da edição americana The stand.


Segundo o próprio autor, a ideia para esse enredo lhe ocorreu quando estava sentado na sala de espera do hospital, ele lia um jornal que falava sobre a poluição causada por alguns materiais químicos no ar, e pensou no perigo desses materiais.Em seguida, perguntou para o doutor o que havia de mais perigoso para a extinção da raça humana. O médico respondeu que o vírus é provavelmente a arma mais perigosa por conta da sua capacidade de modificação. Assim, em 1978 Stephen King escreveu a sua história e como uma homenagem que sempre quis fazer, busca criar o mesmo tom épico de O Senhor dos Anéis (um dos livros favoritos de king)em solo americano,sendo o Flagg uma espécie de novo Sauron.


O livro voltou a ganhar destaque durante essa pandemia (texto escrito durante a pandemia ,em 2020 ).O livro tem muitas coincidências com a situação atual,não somente por ser uma gripe, mas também por conta da maneira como algumas autoridades da obra se posicionam à respeito do vírus. Assim sendo, mesmo que o livro tenha sido escrito e publicado pela primeira vez em 1978,ler em 2020 enriqueceu muito a minha experiência como leitor.


Talvez para o leitor atual, que está em constante contato com outras obras de temática pós-apocalípticas,ler uma obra tão extensa como essa pode parecer um desafio, entretanto seria bom entrar em contato com o livro que influenciou tantas outras obras que vieram depois. Para um leitor de primeira viagem de King(1978), essa pode não ser a melhor leitura para começar com o autor, seu ritmo considerado por muitos como lento e o grande número de personagens podem ser um empecilho para aquele que não está acostumado com escrita a de King(1978).Apesar disso,com um pouco de paciência, é possível perceber logo na primeira parte do livro a habilidade do autor em envolver o leitor no meio de tanta confusão.


Dessa forma, caso você tenha se interessado, esse é um livro altamente recomendável.A dança da morte tem de tudo,aventura,romance, terror, suspense,drama,comédia,fantasia,épico. É um livro sobre travessias e transformações,sobre união para construir algo para o bem ou para o mal,e,principalmente,o livro é sobre a constante batalha entre o bem e o mal.Sua jornada será tão extensa quanto a dos personagens, mas no final,a história e os personagens permanecerão com você, mesmo após o fechar da última página.


Bônus: Recentemente "A dança da morte" foi adaptada para uma série de TV,disponível nos serviços de streams do Starzplay ou pelo serviços de canais presente no Amazon prime vídeo.



Link para o trailer: 

https://youtu.be/idHWCsTD3nU


Autor: Carlos Levy Limas de Sousa,em 10 de janeiro de 2021


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

RESENHA CRÍTICA: Incógnito, o livro que impulsiona a libertação do pássaro azul em nosso peito.

 

LAIR, Larissa; Incógnito; 1. ed. Rio de Janeiro: produção independente, 2020. P. 1-576.

         Os artigos indefinidos jamais serão vistos da mesma forma após a leitura do livro Incógnito, lançado em 2020 pela escritora e comunicóloga Larissa Lair (2020), que brinca com o tema da indefinição em toda sua obra e de diferentes maneiras, seja com os nomes dos capítulos, ou até mesmo com alguns acontecimentos presentes na história. No início da leitura, todos os leitores são incógnitos.

Larissa Lair (2020), formada em jornalismo, possui uma escrita leve e clara, com riqueza de detalhamento que atribui prazer ao leitor e o transporta com facilidade para o ambiente e para a ação narrada, proporcionando a sensação de estar no lugar da personagem. Incógnito é uma fanfic do grupo sul-coreano BTS e agora se tornou um livro, sendo o primeiro publicado da autora, feito de maneira independente. 

Essa primeira edição é focada, a princípio, no público que acompanhava Incógnito nas plataformas digitais de histórias e de fanfics, por esse motivo é considerada um fan made (feito por fã) e não foi necessário alterar os nomes das personagens. No entanto, a autora possui um grande interesse em adaptar a obra para o Brasil e publicá-la também. 

Incógnito é um livro LGBTQ+ colegial que aborda muitos impasses da juventude, sobretudo bullying, homofobia, busca de identidade, relação entre os pais e o adolescente, anorexia, entre outros. Mesmo não tratando de todos esses temas de maneira aprofundada, Incógnito ainda é um livro no qual muitos jovens identificam seus conflitos na adolescência e se sentem acolhidos por saberem que não são os únicos que possuem medos e dúvidas ou que sofrem de algum problema, seja ele externo ou interno. Saber que não se está sozinho em determinada situação é reconfortante, e Incógnito é um livro que, nesse quesito, te abraça.

O título da obra remete a uma das personagens principais: Kim Taehyung, um adolescente que perde seu diário, o qual usava a palavra ‘’incógnito’’ para se autodenominar, buscando manter sua identidade anônima. Mas Jeon Jeongguk, o garoto que encontrou este diário, investiga com minuciosidade todos os detalhes presentes nas anotações pessoais do Incógnito para descobrir quem é a pessoa por trás das narrações peculiares e fascinantes presentes no caderno. Jeongguk, sabendo de todos os problemas que o dono do diário enfrentava — como bullying e homofobia —, sentiu uma grande vontade de se tornar amigo dele.

Assim, há todo um planejamento vindo do garoto para arranjar uma maneira de se aproximar de Taehyung e enfim devolver o diário para ele. O adolescente tem êxito em se aproximar do Incógnito, mas não consegue entregar o caderno ao dono, então o mantém guardado. Cada vez mais próximos, sentimentos novos vão aflorando dentro de Jeongguk e ele se vê cercado de dúvidas, medos e espinhos, se perguntando a todo momento se estava mesmo sentindo atração por um garoto.

Lair (2020) trabalha em sua obra o poema O pássaro azul, de Charles Bukowski, que trata da censura de quem a pessoa realmente é. O eu-lírico do poema diz que há um pássaro azul dentro de si, mas é duro demais com ele e não o deixa sair, ou quando o deixa, é à noite, quando ninguém está vendo, e em seguida ele volta para seu devido lugar: em seu peito. Ambas as personagens principais possuem um pássaro azul guardado dentro de seu peito e os leitores, conforme a leitura, vão percebendo qual pássaro azul aprisionam também.

Da mesma forma como há a abordagem de indefinição em Incógnito, existem também muitas descobertas: sobre orientação sexual, sobre identidade e, claro, sobre com quem o diário estava. Apesar de toda reviravolta decorrente desses descobrimentos, eles apenas servem para definir e concretizar os sentimentos e as concepções das personagens.

Um capítulo muito marcante para a história inteira é o Um baile, pois Taehyung, depois de enfim conquistar sua voz e de ter construído uma confiança dentro de si, encara de frente o valentão que costumava praticar bullying consigo, enfrentando todos os seus medos com coragem, determinando, então, sua verdadeira personalidade. Além deste grande fator, no capítulo há a liberação do pássaro azul dos dois garotos quando, no meio de todos os alunos do baile de formatura, eles decidem se beijar, expondo para todo o colégio que estavam juntos.

Assim como as duas personagens principais, no final da leitura do livro os leitores já tiveram uma reflexão significativa sobre sua própria identidade e descobriram ou reafirmaram quem eles são de fato, enfim liberando o pássaro azul — que significa a própria aceitação individual — guardado dentro de cada um. Por fim, os leitores deixam de ser incógnitos.

           Como se trata de uma obra narrada através da perspectiva de um adolescente, Incógnito tem como público-alvo jovens entre 14 e 17 anos, mas considero um livro para todas as idades devido aos temas importantes abordados ao longo do romance e, claro, ao fato de que não tem idade para se ter um pássaro azul guardado em nosso peito. Portanto, afirmo ser um livro que trará muitos ensinamentos ao leitor e o fará descobrir muitas coisas sobre si mesmo, assim como Taehyung e Jeongguk descobriram, juntos.

 

Resenha por: Maria Clara de Paula Reis, graduanda em Letras: português pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Onde ler Incógnito:

https://www.spiritfanfiction.com/historia/incognito-vkook--taekook-7043132

https://my.w.tt/jHnIDuAGScb 

Resenha : Extraordinário (2017)

Pôster do filme - Extraordinário (2017)

O filme " Extraordinário ", dirigido por Stephen Chbosky, lançado em 2017, foi um sucesso de bilheteria no Brasil e no mundo, inspirado no livro que é best-seller, da autora R.J. Palacio (2012). O filme conta a história de um menino chamado Auggie Pullman, que nasceu com deformações faciais causadas por uma síndrome genética e passa por várias cirurgias desde o seu nascimento. Até seus 10 anos ele não ia para escola por preocupação de seus pais em como as pessoas reagiriam com sua aparência. Mas, depois de um tempo, mesmo com medo das mudanças, Auggie e seus pais, interpretados por Julia Roberts e Owen Wilson, decidem que já está na hora dele ir para escola. Além do Auggie narrar a sua história, o filme também conta com a narração de outras personagens, como sua irmã Olívia, que conta como se sente em relação aos problemas do irmão, e como sua família encara isso. 

O que era esperado acontece, Auggie sofre muito preconceito por parte de seus colegas e pensa em desistir diversas vezes, mas ao longo da história vemos que não é apenas mais um filme de drama que retrata o bullying sofrido na escola. Extraordinário também nos mostra de uma forma emocionante sobre as amizades que Auggie conquista, como ele amadurece durante essa mudança de vida e como seus familiares e amigos aprendem todos os dias com ele. O filme nos inspira a ter coragem e encarar nossas dificuldades com amor, gentileza e muita empatia pelo próximo.