sexta-feira, 6 de julho de 2018

A HISTÓRIA DE VIDA DOS REPROVADOS



Marina Cardoso NASCIMENTO;
Sara Sayure Mihara de ALMEIDA;
Yasmina Pacheco COSTA.

Por meio do método qualitativo, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, por todo o grupo, acerca de assuntos que rodeiam a reprovação escolar tanto no ensino fundamental quando médio. Em conjunto, cada uma de nos coletou um depoimentos de pessoas que passaram pela experiência da reprovação, com o objetivo de contar as vivências dessas e compará-las com o que é dito na literatura.
A escolha desse tema justifica-se pela escassez de pesquisas sobre a visão dos alunos na literatura e pela urgência de se falar sobre tema, já que os alunos que passaram por esse processo ficam marcados por ele durante toda a sua vida escolar, além de que a esse tem um forte impacto na autoestima desses estudantes.
A partir das leituras feitas, observa-se que o processo da reprovação como ferramenta no meio educacional partiu do objetivo de homogeneizar o ambiente da sala de aula, onde os alunos apresentariam o mesmo, senão um equilíbrio, no nível de conhecimento das matérias estudadas. Contudo, o censo escolar de 2007, analisado pela INEP, mostra que “dos 3,6 milhões que se matriculam no ensino médio, apenas 1,8 milhão concluem esse grau. A taxa de evasão é de 13,3% no ensino médio contra 6,7%, de 5ª a 8ª série, e 3,2%, de 1ª a 4ª série. (BRASIL, 2007)” [3]. Segundo Soares, o percentual de repetência escolar brasileira é o segundo mais alto do mundo, sendo menor apenas que o índice de reprovação da Angola. “A repetência afeta a autoestima das crianças, além de ser uma das principais causas do baixo rendimento e da evasão escolar”, diz o pesquisador[2].           
            Consequência da reprovação repetitiva é a evasão e abandono escolar. Segundo a definição do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/Inep, “abandono” ocorre quando o aluno deixa de frequentar a escola por um determinado período, mas no ano seguinte retorna os estudos. Já a evasão é o desligamento definitivo do estudante do âmbito escolar; o aluno “desiste” de concluir os estudos e, na maioria dos casos, começa a trabalhar[3].
Fatores internos e externos, como drogas, tempo na escola, sucessivas reprovações, falta de incentivo da família e da escola, necessidade de trabalhar, excesso de conteúdo escolar, alcoolismo, localização da escola, vandalismo, falta de formação de valores e preparo para o mundo do trabalho, podem ser considerados decisivos no momento de ficar ou sair da escola, engrossando a fila do desemprego [...] O Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH e no PNUD e a menor média de anos de estudo entre os países da América do Sul. (SILVA; ARAÚJO, 2017, p. 36).

Com base nos três depoimentos coletados, foi possível notar que os entrevistados, inicialmente, atribuíam suas reprovações a sua “falta de interesse” pelos estudos, mas no decorrer de suas falas, é possível notar que essa “falta de interesse” estava ligada a outros fatores, como a dificuldade de acompanhar o ritmo do resto da turma, como é comentado nesse trecho:
Eu acho que foi porque eu era uma criança e eu tinha o meu tempo... e eu não conseguia fazer as coisas no tempo que o professo queria, e ai... Entendeu? Então... Os professo não para pra entender, os professor exigi... Um tempo que as criança não tem[...] (DEPOIMENTO I, informação verbal).

Também foi possível notar, a partir dos depoimentos, que reprovação tem um impacto sobre a autoestima dos alunos. Os reprovados relatam que se sentiram abalados com a reprovação e que essa interferiu para que eles não se sentissem capazes de continuar a estudar ou de aprender qualquer coisa:
Eu me senti péssima, péssima, péssima. Eu não esperava… Eu sabia, assim, eu tava fazendo tudo errado, mas eu ainda esperava que fosse passar. Eu via muito aluno ruim ali que passou! E eu não, sabe? E nossa, teve impacto, óbvio [...] (DEPOIMENTO II, informação verbal).
Eu acho que sim, tipo... O meu pai ele fez virar um problema muito grande na minha cabeça, isso afetou meu psicológico de criança e ai... eu não me achava capaz”. (DEPOIMENTO I, informação verbal).

Em um dos depoimentos coletados foi observado que mesmo depois de reprovar o estudante ainda seguiu com as mesmas dificuldades que levaram a sua reprovação no ano seguinte, quando repetiu a série:
No outro ano, voltei ao terceiro ano e não consegui sanar minhas dificuldades, ainda que não obtendo as notas na média, não eram tão baixas como no ano passado[...](DEPOIMENTO III).
Desse modo, é possível perceber que essa fala contraria a forma que as instituições de ensino interpretam a reprovação, como nova oportunidade de aprendizagem, já que nesse caso, é difícil aproveitar essa “nova chance” sem conseguir acompanhar o ritmo do resto da turma.
A partir dos depoimentos coletados e das leituras realizadas, é possível concluir que parece não existir ensino sem reprovação; utilizando a linha de pensamento de Jacomini, o aprendizado gira em torno da promoção, do medo de reprovar, e não da necessidade de compreender de forma concreta o que foi estudado. Existe um claro descaso do sistema educacional, com o docente e com o discente, e as causas e fatores que levam à reprovação são taxados por desinteresse quando a explicação para tal consequência é muito mais complexa que o “não querer aprender” e o “não gostar de estudar”. Quando parte-se para a visão do aluno, com base nos depoimentos, é possível concluir que esses tiveram muitas dificuldades  de acompanhar o ritmo proposto pelas escolas e a partir dessas dificuldades reprovaram pois não tiveram o apoio necessário para saná-las. É importante levantar que esses estudantes, também tiveram a autoestima afetada pelo processo da reprovação. Desse modo, podemos dizer que nem sempre a reprovação é a solução ideal para todos os casos, já que pode vir a afetar os alunos de maneira negativa.
Referências:
[1] JACOMINI, Márcia Aparecida. Educar sem reprovar: desafio de uma escola para todos. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 35, n. 3, p.557- 572, dez. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v35n3/10.pdf>. Acesso em: 03 jun. 2018.
[2] GARSCHAGEN, Sérgio. Ensino - O dilema da repetência e da evasão. Ipea, Brasília, v. 36, n. 4 out. 2007. Disponível em:<http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&d=1162:reportagensmaterias&Itemid=39>. Acesso em: 05 jun. 2018.
[3] SILVA FILHO, Raimundo Barbosa; ARAÚJO, Ronaldo Marcos de Lima. Evasão e abandono escolar na educação básica no Brasil: fatores, causas e possíveis consequências. Educação Por Escrito, Porto Alegre, v.8, n. 1, p.35-48, jun. 2017. Disponível em: <revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/porescrito/article/download/24527/15729>. Acesso em: 07 jun. 2018.

Depoimentos:

Depoimento I:

Pergunta: Como que você descreve sua experiência com a escola?
Resp.:Eu não gostei da minha experiência com a escola, porque meus pais não me entendia e nem meus professores me entendia e todo mundo colocava a culpa ni mim”.

Pergunta:
Você já reprovou alguma vez? Se sim, quantas vezes? Qual foi o impacto que você acha que isso teve na sua vida?
Resp.:
Quantas vezes eu reprovei? Eu reprovei umas quatro vez e parei de estudar um monte de outras vez, então... 22 no tercerio ano, to mais duns quatro anos atrazado…”.

Pergunta:
Você acha que a reprovação resultou no seu abandono escolar?
Resp.:
Não”.

Pergunta:
Você abandonou não foi por causa da reprovação? Foi por outro motivo? Por qual motivo?
Resp.:
Foi... porque eu não gosto de estudar”.

Pergunta: Por que você não gosta de estudar?
Resp.
: “Por que eu não gosto de estuda? Não gosto de estuda por que... acho que tem muita coisa nois num vai precisar saber, nois não precisa saber, muita coisa que nois aprende e não vai usar na vida... Eu achei desnecessário e parei de estuda”.

Pergunta:
Em algum momento, você se sentiu menos capaz ou inferior à inteligência de outras pessoas, por causa das suas reprovações?
Resp.:
Eu acho que sim, tipo... O meu pai ele fez virar um problema muito grande na minha cabeça, isso afetou meu psicológico de criança e ai... eu não me achava capaz”.

Pergunta: Ao que você atribui a suas reprovações? Fatores internos ou externos à escola?
Resp.:
Eu acho que foi porque eu era uma criança e eu tinha o meu tempo... e eu não conseguia fazer as coisas no tempo que o professor queria, e ai... Entendeu? Então... Os professor não para pra entender, os professor exigi... Um tempo que as criança não tem,  quando eu tive dificuldade, o meu pai chegou me oprimino e piorou tudo, então foi por ai que eu desanimei, tendeu? Não consegui seguir o ritmo que eles queria e ai quando eu não consegui seguir esse ritmo que eles queria, o meu pai começou a mi oprimi e foi ai que eu desgostei de vez”.

Pergunta: Você acha que a forma que a escola funciona hoje, ela feita para pessoas como você?
Resp.:
Não, a escola... Eu acho que a escola mundial, todas as escolas, estão com um problema... A escola não é feita nem pra mim, nem pra ninguém... A escola tá errada, do mundo inteiro... Eu acho que a escola é errada e ela cria vários problemas psicológicos, como por exemplo, o enfileiramento das pessoas, e ai você só enxerga a nuca do outro, entendeu?  Então, ninguém... Ninguém... Tem todo uma hierarquia de quem tá atrás de quem... Eu acho que isso é errado e a escola tá errada porque eles querem que você decore as respostas certas, que eles acham certas, então, pra eles é melhor que você decore uma coisa, do que você raciocine... Um raciocínio errado vale mais do que uma resposta certa decorada, então... Eu acho que a escola é errada porque ela tem esse negocio de ficar uns atrás dos outros nas fila e ninguém olhar no olho de ninguém, então, aí ensina a hierarquia que um tá atrás do outro, em vez de botar todo mundo olhando um no olho do outro, pá todo mundo... pá ter o respeito, de que todo mundo é igual fica...[áudio incompreensível]... de quem é atrás de quem, quem tá na frente de quem e esse lance também do... de que não, tão preocupado com o que você raciocina, tão preocupado com que você decore o que eles acha certo”.

Pergunta: Você acha que a forma que a escola age é excludente?
Resp.:
A escola, que devia ser... o lugar mais revolucionário, o lugar da imaginação, da criação e da liberdade... Mas eu acredito que os professo, tem um padrão, tem as tarefa certa, então eles trabalham em cima do que é passado pra eles passar, então... Não é que a escola exclui, mas escola não deixa ninguém ser quem eles é, eles joga todo mundo... “Ah então esse aqui é meu material didático, então, é isso aqui que eu vou trabalha”.. Não tem tempo pra criação, não tem tempo pra criatividade, então... Não é que exclui um ou outro, mas exclui… Exclui geral, porque... Porque... Todo mundo é diferente, mas ali... mas li, vai ser trabalhado a mesma coisa, então, todo mundo é excluído, ninguém aprende o que quer aprende... Tipo assim... Rola uma exclusão então, mas não de um, de dois, mas de todo mundo... Porque você não tem... o direito de dar sua opinião, você tem que trabalhar o que passarão, pros material didático, pros professo passar pros aluno... Acho que isso ai”.

Pergunta: Você acha que a escola está preocupada em padronizar as pessoas, fazer com que todas sejam iguais em vez de as diferenças?
Resp.:
Esse negocio de valorizar... isso... não acontece no Brasil, eles tem o padrão X, eles tem... a meta X, e é isso aí, se você tá fora, se você tá dentro... então... não valoriza nada, é o que ele qué que tem que ser”.

Depoimento II:

Causa da reprovação, de acordo com a opinião pessoal.
Resp.:Eu tava passando por uma fase em que eu faltava muita aula, e quando eu ia, eu ia mais para conversar, em muitas das vezes aquilo não era notado.Eu tava ali, eu tava conversando, eu estava atrapalhando a aula, mas o professor tava meio que foda-se. Apenas uma professora pareceu notar que eu faltava, chamou minha atenção e até falou com a minha mãe… mas tipo, já tava numa fase que eu acho que não dava para eu passar realmente, eu ia muito mal nas provas, eu faltava muito, eu não tinha aprendido muito o conteúdo porque eu não prestava atenção.Então o motivo foi basicamente esse… não sei se a instituição teve… se o colégio teve alguma culpa com isso. Eles poderiam ter sido mais rígidos comigo, eu não sei, de alguma forma, talvez isso ajudasse mais… durante todo o ano que eu ficava fazendo bagunça, a minha mãe foi chamada lá só uma vez, minha atenção eu acho que foi chamada pouquíssimas vezes. Então, eu tipo… para mim tava de boa. Ninguém tava falando nada, então tava ok”.


O impacto da reprovação na sua vida.
Resp.:Eu me senti péssima, péssima, péssima. Eu não esperava… Eu sabia, assim, eu tava fazendo tudo errado, mas eu ainda esperava que fosse passar. Eu via muito aluno ruim ali que passou! E eu não, sabe? E nossa, teve impacto, óbvio. Me fez refletir bastante, de certa forma, eu chorei muito e tal, mas aí eu parei para pensar, sabe, levar isso para um lado positivo em vez de pensar só no lado negativo que eu ia ver as pessoas que eu estudava passar de ano, elas saindo da escola e indo para outra, no ensino médio e eu continuando lá, esses trem, e eu parei para pensar e “poxa, qualquer experiência, por mais que ela seja ruim, ela é válida”, e eu aprendi com isso. Eu me interessei mais pelos estudos, eu falei “Não, pô, eu tenho que estudar, isso é meu futuro. A gente não chega em lugar
nenhum sem ter estudo, pelo menos um básico”. Eu acho que isso, de certa forma, me ajudou bastante, sabe? Porque eu era muito, muito irresponsável. Eu ainda sou um pouquinho, vou ser sincera, mas em vista do que eu era, cara… nossa, eu melhorei uns 80%, sabe? Isso me fez abrir os olhos, de certa forma”.

Você considera o ambiente escolar inclusivo?
Resp.:Depende muito da instituição e do aluno, sabe? É… eu sentia, sei lá, talvez eu possa tá errada, mas eu sentia que a atenção dos professores, até hoje, eles são muito direcionados para aqueles alunos que são bons, sabe? Em vez de eles direcionarem a atenção deles para os alunos que estão com dificuldade, sabe (?), dá mais apoio para aqueles alunos para ver se eles melhorava, eles focam mais em ensinar quem já aprende muito rápido, sabe? Eu vi muito caso que, por exemplo, passava algum exercício pra gente resolver em sala e perguntava para o mais inteligente se eles tinha conseguido, mas tipo....e o restante? Conseguiu fazer? O que importava era se aquele estudante inteligente tinha conseguido? E o resto? O resto não importa? Em alguns momentos eu me sentia meio… em um ambiente não tão agradável, sabe? Aqui na minha escola de ensino médio a gente tinha apoio dos professores, mas em outras escolas eu me sentia meio desconfortável… eu sempre me sentia assim, em procurar ajuda dos professores, sabe? Eu achava que os professores estavam ali ensinando por ensinar, pelo salário, alguns, não todos, não vou generalizar. Mas alguns, eu não sentia que eles estavam ali porque se importavam muito com a gente, sabe? Sei lá, não sei explicar direito”.

O que você acha que precisa melhorar no sistema educacional atual?
Resp.: Os professores tinham que… analisar melhor seus alunos, sabe? Tipo se um aluno faltasse muito ele tinha que chegar lá e procurar “nossa, por que você tá faltando?” e sei lá o quê...Às vezes tem algum problema pessoal, na família, talvez… só parar um pouquinho e conversar com aquele aluno… já pode até ajudar, sabe? Só uma conversa, um apoio, algo que… que te faça, sei lá, seguir em frente se a pessoa tá com dificuldade, esses trem. Eu acho que eles tinham que olhar a sala como um todo, não, não esquecer de algumas partes e focar apenas em outra. Eu notei isso, sabe? Eu senti que poucos professores - até tinha, tinha tipo alguns que eram bem legais, que iam lá e perguntava, vê se tinha feito exercício… e isso com a sala toda. Mas outros nem… sabe? Pouco se importam, falavam assim “Ah, você vai reprovar mesmo” sei lá o quê. Eu já ouvi professor falando isso para aluno, sabe? “Por que você vem na escola se cê vai reprovar mesmo?”. Esses trem de valorizar as diferenças… um professor fazia bullying mesmo com um aluno pelo cabelo dele… falava que ele não lavava o cabelo, esses trem. Isso tira o interesse do aluno pela aula do professor, sabe? Eu acho que isso é um motivo de reprovação, porque o aluno já não se interessa por aquela aula, porque o professor tá o tempo todo bullynando, tá o tempo todo em cima, sabe? Provocando… coisas que o aluno já toma raiva daquilo. Acho que isso deveria ser notado nas escolas. Deveria, sei lá, se o aluno for fazer algum tipo de reclamação, que o professor fosse alertado sobre aquilo, fosse feita alguma coisa, tomada alguma… alguma atitude, porque… cara, eu vi muito isso! E não foi feito nada, sabe? Nada mesmo. Eu via muito esse aluno revirar os olhos e falar “ah, sociologia”. Não era por que ele não gostava da matéria, ele não gostava era do professor, das atitudes que o professor tinha com ele”.

Depoimento III:

As escolas privadas de ensino médio de Goiânia estão cada vez mais puxadas, pelo fato das competições de quais colégios mais aprovam alunos em cursos considerados difíceis de passar em federais. Tendo uma sobrecarga muito grande sob os alunos, com aulas até tarde, provas aos finais de semana, e um milhão de listas.
Quando cheguei ao terceiro ano do ensino médio senti toda essa pressão que é posta em cima dos alunos, de que além das notas, você tem que obter um bom resultado no enem. E não consegui conciliar isso, por conta da minha dificuldade em exatas e biológicas. Não consegui acompanhar o ritmo do colégio, parei de estudar no segundo semestre para voltar no outro ano e conseguir pegar o fio da meada.
Havia também a falta de interesse da minha parte, porém, com todas as dificuldades que eu tenho nessas matérias, me senti incapaz de aprender e parei de estudar.
No outro ano, voltei ao terceiro ano e não consegui sanar minhas dificuldades, ainda que não obtendo as notas na média, não eram tão baixas como no ano passado. Mas, me esforcei o bastante para não reprovar novamente, e com toda a pressão de vestibular e muitos exercícios de todas as matérias, deixava um pouco de lado as exatas e biológicas pois tinha certeza de que não exerceria algo nessa área no
futuro”.

"A escrita da voz amordaçada: o bullying no ambiente educacional"








A Música Nordestina: Um Enfoque no Baião










GÊNERO, RAÇA E EDUCAÇÃO: O RACISMO SOFRIDO POR MENINAS NEGRAS NO ESPAÇO ESCOLAR


GÊNERO, RAÇA E EDUCAÇÃO: O RACISMO SOFRIDO POR MENINAS NEGRAS NO ESPAÇO ESCOLAR 
 
Janaína BORGES DE SOUSA 1-UFG 
Luane RICARTE DO CARMO 2-UFG 
 
O desejo de desenvolver esta pesquisa surgiu a partir de relatos de colegas na disciplina de núcleo livre intitulado Leitura e Produção Textual, em cuja aulas elas/eles expuseram os diferentes tipos de preconceitos sofridos na escola. Ao ouvir os relatos, ficamos instigadas a investigar como foi a trajetória de mulheres negras, compreendendo o processo de formação no ambiente escolar, considerando o racismo no Brasil. Entendemos que por sermos negras, sofremos inúmeras situações de discriminação no espaço escolar em função da nossa corporeidade, cabelo ao tom de pele. Considerando a memória resgatada durante os relatos em classe, decidimos averiguar como foi esse processo para outras mulheres que hoje estão no espaço universitário, uma vez que Gomes (2002, p.43) aborda que, apenas ao se distanciar da escola ou deparar com outros espaços sociais em que a questão racial é tratada de maneira positiva, é que sujeitos conseguem falar sobre essas experiências e emitir opiniões sobre temas tão delicados que tocam sua subjetividade. 
A escola por não abordar as questões raciais de modo sério e comprometido com a formação da identidade dos sujeitos escolares, permite que seja propagada e até mesmo seja reforçada situações de violência racial de gênero e classe, o que resulta em marcas que por vezes não compreendemos ou não associamos à nossa corporeidade pela falta de entendimento de que essas violências são causadas em função dos corpos que são marginalizados e estigmatizados por sua cor e traços. 
Para desenvolvimento da pesquisa, utilizamos como procedimentos metodológicos revisão bibliográfica e entrevista semiestruturada. Buscamos identificar na entrevista semiestruturada, os aspectos relacionados à idade, ao curso e à etapa de formação das entrevistadas e, no decorrer da entrevista direcionamos por meio das perguntas, que elas relataram suas vivências abordando o racismo estrutural existente no espaço escolar. Entrevistamos seis mulheres de 22 a 39 anos, graduandas dos cursos de: geografia; artes cênicas; artes visuais; ciências sociais e mestrandas, brasileiras e uma uruguaia. Mulheres que estão no início, no meio e no final de suas graduações, com a perspectiva de verificar suas leituras raciais nestas várias etapas de sua formação. 
A pesquisa propiciou às entrevistadas refletirem sua trajetória, que, segundo 50% delas, não haviam pensando sobre suas vivências na escola e/ou na universidade. Um outro aspecto que nos chamou a atenção foi a não superação ou cicatrização das marcas deixadas pelo espaço escolar, algumas têm memórias de situações de quando tinham 5 anos de idade, o que demonstra uma grande necessidade de trabalhar o racismo no ambiente escolar. E um entendimento de que através do ambiente universitário tiveram acesso à uma compreensão do que significava carregar o corpo de uma mulher negra, assim como, expor opiniões, vivências e estudos para corroborar com o combate ao racismo, seja elas, sendo professoras, alunas ou nos espaços de educação não formal. 
 Para o desenvolvimento da pesquisa dividimos o projeto em 6 partes:
 escolha do tema;
 revisão bibliográfica; 
 fichamentos;
 elaboração de questões; 
entrevistas semiestruturadas; 
elaboração do resumo e apresentação.
Todas as etapas foram feitas em conjunto por todas integrantes do grupo.

 
 

Referências Bibliográficas 

  
GOMES, Nilma Lino. Trajetórias Escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?. Rio de Janeiro, Revista Brasileira de Educação, nº.21, pp. 40-51, set-dez, 2002.  
 
GOMES, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores/as: um olhar sobre o corpo negro e o cabelo crespo. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.29, n. 1, p. 167-182, 2003. 
 
SANTOS, Renato Emerson dos. Diversidade, espaço e relações étnico-raciais: o negro na Geografia do Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2009. 
 

A HISTÓRIA DE VIDA DOS REPROVADOS






quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

“VOZES DE TCHENÓBIL” – UMA VOZ QUASE CÂNONICA


    “Em 26 de abril de 1996, uma explosão seguida de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia – então parte da finada União Soviética –, provocou uma catástrofe sem precedentes em toda a era nuclear: uma quantidade imensa de partículas radioativas foi lançada na atmosfera da URSS e em boa parte da Europa” – trecho do livro “Vozes de Tchernóbil”, da jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch, publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. É em meio a esse cenário, por sinal, bastante trágico, que a autora dá voz a uma legião de pessoas que sobreviveram a esse acidente nuclear de dimensões inimagináveis, por meio de uma escrita magistral, pois, ela não apenas faz como os jornalistas já fizeram - coletam informações, por meio de entrevistas e reúnem conteúdo suficiente para elaboração de um livro, cujo caráter é meramente informativo – pelo contrário, a autora, por meio de relatos de entrevistas com vítimas do acidente nuclear, mobiliza uma escrita não apenas descritiva, mas literária, uma vez que não se detêm a descrever fatos, mas relatar e testemunhar os acontecimentos, fazendo uso de um verdadeiro concerto de vozes – doloridas, conformadas, pungentes, revoltas – enfim, uma obra cujas dimensões se assemelham a potência dos grandes romances literários.
     A obra apresenta uma organização tipicamente jornalística, com relatos de entrevistas sobrepostos um a um, no entanto, apresenta um Q.I. a mais, afinal, o modo como os relatos são descritos oferecem ao leitor a experiência viva com o ocorrido, pois, fazendo uso das entrevistas, a autora dá voz a sua obra, por sinal, muitas vozes, o que acaba por torná-la profundamente polifônica. Aliás, é justamente a presença da polifonia que acaba por distingui-la das demais obras do ramo, pois, a forma como os relatos são encadeados no livro, acaba por transformá-lo em um romance de múltiplas personagens, as quais estão, cada uma a seu modo, relatando suas experiências, suas angústias, suas visões do acidente que está intrinsicamente relacionado com suas vidas.
     Entretanto, o seu maior diferencial, é que as personagens contidas a cada virada de página, não são fictícias, criadas de modo a caminhar para determinado rumo, por definição do autor que lhe concebeu literariamente, pelo contrário, são personagens reais, vítimas de um acidente nuclear. Se a obra possuí esse diferencial, isso se deve a um destino infeliz, ao qual tantas pessoas foram submetidas a viver. Aliás, os relatos presentes no livro, não se assemelham a uma obra literária já escrita, pois não faz uso da verossimilhança, da Mímese, no entanto, acaba por superar essas distinções quando mobiliza um coro de vozes, as quais relatam a realidade, não uma aproximação a essa realidade, ou uma realidade paralela muito bem construída, pelo contrário, é a realidade nua e crua a qual essas pessoas foram submetidas.
     Em meio a todos esses fatores, destacam-se também o fator estético, afinal, a forma como os relatos são sobrepostos contribuem para criar um aspecto harmonioso, pois ao passar de cada capítulo, a cada relato, percebe-se que um está sempre complementando o outro, que eles dialogam entre si, que as personagens cujas vozes são mobilizadas na obra acabam por se sintonizarem em uma única frequência, aquela que está encarregada de contar um fato, mas é a forma como se conta que distingue este “contar”, uma vez que não “contam” simplesmente, mas “encantam” quem está disposto a ler, conseguindo arrancar suspiros de comoção, dor, tristeza e compaixão, e acima de tudo, possibilita viver e sentir-se parte da obra.
     Sendo assim, não seria demasiadamente ingênuo considerar a obra como cânone literário, afinal, apresenta os aspectos linguísticos, estéticos, formais e informais, além de um tema de importante relevância, que acabam por atribuí-la um caráter canônico. Entretanto, resolvi recorrer aos primórdios, elucidando o significado de cânone, “é um termo que deriva do grego ‘kanón’, utilizado para designar uma vara que servia de referência como unidade de medida. Na Língua Portuguesa o termo adquiriu o significado geral de regra, preceito ou norma. Na literatura, é um conjunto de livros considerados como referência num determinado período, estilo ou cultura”. Partindo daí, temos que cânone é aquilo que serve de referência, desse modo, ousaria dizer que “Vozes de Tchernóbil” também se caracteriza como uma referência tanto de estilo, como de forma, uma vez que sua concepção passou por uma construção estética e linguística fantástica, pois ao mobilizar linguisticamente a polifonia, utiliza-se das vozes para se estruturar, e quando organiza harmoniosamente os relatos, acaba por estabelecer um equilíbrio estético, que beira a maestria, como um coro sendo regido por um maestro fenomenal. Aliás, referenciando essa comparação, podemos dizer que o coro é o livro, as vozes em sua individualidade é o som ecoado pelo coro, e o maestro é a autora, que impecavelmente concebe sua obra.
     Por fim, ouso informar que, em 2015 esta mesma obra recebeu o prêmio Nobel de Literatura, devido ao aspecto semelhante ao de reportagens jornalísticas e a potência de grandes romances literários, considerado uma obra-prima do nosso tempo, pois, a obra refinou em uma escrita única a observação da realidade e ostentou as melhores qualidades narrativas da literatura contemporânea.

Victor Alexandre Silva, graduando em Letras: Português pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás.